Stanley
Martins Frasão
Advogado Sócio do Homero Costa
Advogados
A
história política, social e individual sugere uma constatação incômoda: a
liberdade raramente nasce do conforto. Ela costuma emergir de rupturas, perdas
e escolhas difíceis — quase sempre acompanhadas de algum grau de dor. Essa
relação não é moralista nem romântica; é estrutural.
Liberdade,
em seu sentido mais profundo, implica autonomia verdadeira. E essa autonomia
exige renúncia: abrir mão de privilégios herdados, de certezas consolidadas, de
proteções que oferecem tranquilidade. Em sociedades autoritárias, o preço da
liberdade costuma ser evidente: prisão, exílio, perseguição. Em democracias
maduras, a dor é mais sutil, mas não menos presente: aceitar a frustração do
dissenso, conviver com decisões coletivas imperfeitas, tolerar a lentidão
institucional. A alternativa — a ordem sem atrito — geralmente cobra um preço
maior no longo prazo.
No
plano coletivo, as grandes expansões de liberdade foram precedidas por
conflitos. A abolição da escravidão, a ampliação do sufrágio, os direitos
civis, a liberdade de imprensa: nenhum desses avanços ocorreu sem resistência.
A dor, nesses casos, não foi um objetivo, mas uma consequência inevitável de
confrontar estruturas que se sustentavam justamente pela negação da liberdade
alheia. O desconforto social é, muitas vezes, um sinal de que algo
profundamente enraizado está sendo questionado.
Há,
contudo, um equívoco recorrente: confundir essa relação histórica com uma
apologia do sofrimento. Dor não é virtude em si, nem condição suficiente para a
liberdade. Há sofrimento estéril, que apenas reproduz dominação. O que importa
é o sentido da dor — se ela decorre de uma escolha consciente por autonomia, ou
se é imposta para mantê-la distante. Regimes autoritários, afinal, também
produzem dor em larga escala, mas o fazem para preservar o controle, não para
ampliar a liberdade.
No
plano individual, a equação se repete com nuances. Tornar-se livre implica
assumir responsabilidade: escolher uma profissão contra expectativas
familiares, romper relações que aprisionam, sustentar opiniões impopulares,
admitir erros. Cada uma dessas decisões carrega um custo emocional real. A
liberdade pessoal não é a ausência de limites, mas a capacidade de escolhê-los.
E toda escolha verdadeira exclui alternativas, produz perdas e exige maturidade
para suportá-las.
É
nesse ponto que a ideia de liberdade se distancia da promessa fácil vendida em
discursos simplificados. Liberdade não é conforto permanente, nem garantia de
felicidade contínua. Ela amplia possibilidades, mas também expõe fragilidades.
O indivíduo livre erra sob a própria responsabilidade. A sociedade livre debate
em público suas contradições. Ambos enfrentam a ansiedade do inacabado.
O
desafio contemporâneo talvez esteja na baixa tolerância à dor — não à dor
física, mas ao desconforto psicológico e social. Redes sociais amplificam a
expectativa de validação constante; algoritmos reduzem o contato com o
dissenso; soluções rápidas substituem processos difíceis. Nesse ambiente, a
liberdade corre o risco de ser redefinida como mera conveniência: ser livre
passa a significar não ser contrariado. É uma noção sedutora, mas frágil.
A
liberdade que dispensa qualquer dor tende a ser superficial. Ela evita
conflitos, mas também evita transformações. Já a liberdade que reconhece o
custo do crescimento — individual e coletivo — não promete alívio imediato, mas
oferece algo mais duradouro: dignidade, autoria e responsabilidade.
Dizer
que não há liberdade sem dor não é exaltar o sofrimento. É reconhecer que a
emancipação, em qualquer escala, exige atravessar zonas de desconforto. A
alternativa não é uma vida sem dor, mas uma vida em que a dor não seja inútil —
em que ela seja o preço consciente de não delegar a outrem o controle sobre o
próprio destino.
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