Stanley
Martins Frasão
Advogado Sócio de Homero Costa
Advogados
A Lei de Parkinson diz que o
trabalho tende a ocupar todo o tempo disponível para ser feito. Essa lei pode
demonstrar como é o impacto na gestão do tempo e na produtividade dos
advogados.
A Lei de Parkinson é um princípio de
produtividade formulado por Cyril Northcote Parkinson (historiador e escritor
britânico) que resume um padrão comum no trabalho: “O trabalho se expande de
modo a preencher o tempo disponível para a sua realização.”
Na advocacia, isso aparece quando um
prazo longo vira permissão tácita para adiar, revisar demais e complicar.
O resultado costuma ser noites em
claro, retrabalho e peças maiores sem ganho proporcional de persuasão.
Aplicá-la bem não é “correr mais”, e
sim criar limites inteligentes para entregar com consistência.
No ano que completo 1 de estágio + 39
anos do exercício da advocacia explicito sugestões para usar a Lei de Parkinson
no contencioso e no consultivo no Brasil.
1) Onde a Lei de Parkinson “pega” mais
forte
Prazos processuais (CPC/CLT/CPP) muitas
vezes parecem folgados, mas a peça cresce até o último dia.
A pesquisa de jurisprudência se expande
em abas infinitas quando não há um critério de suficiência.
A revisão vira perfeccionismo: “só mais
um ajuste” em vez de clareza, estrutura e tese.
Reuniões com clientes ou equipe ocupam o bloco inteiro porque não têm pauta e
decisão definida.
A gestão do escritório (financeiro,
marketing, operacional) toma o dia quando não há janelas fixas.
2) Sintomas típicos na rotina do
advogado
Peças com 30 páginas que poderiam ter
12, ou menos, porque o tempo disponível incentiva “encher” o argumento.
Checagens repetidas de andamento
processual sem objetivo, virando uma forma sofisticada de procrastinar.
Delegação tardia: o sócio segura tudo
até perto do prazo, e a equipe vira gargalo na reta final.
Tarefas pequenas (juntar documento,
protocolar, gerar guia) viram “pendências eternas” no fim do dia do derradeiro
prazo.
Agenda reativa: o dia é consumido por
urgências alheias porque não existe timeboxing.
3) Princípio central: reduzir o tempo
disponível (com segurança)
Para cada entrega, defina um prazo
interno menor que o prazo legal, com folga para imprevistos.
Exemplo: se a contestação vence em 15
dias, trate como se vencesse em 10 e reserve 5 para ajuste final.
Isso não diminui qualidade; aumenta
previsibilidade e reduz a chance de erro por cansaço no último dia.
O prazo interno deve ser comunicado
como regra de operação, não como “favor” da equipe.
A folga final serve para anexos,
validações, checagem de poderes, custas, e contingências de sistema.
4) Timeboxing para atividades jurídicas
(modelo simples)
Separe a elaboração de peças em blocos:
(a) tese e pedidos, (b) fatos e provas, (c) direito, (d) revisão.
Defina tempo máximo por bloco, por
exemplo 45/60/60/30 minutos, conforme complexidade do caso.
Ao fim de cada bloco, produza um
entregável: tópicos prontos, ainda que imperfeitos.
A revisão deve ter checklist objetivo
(ortografia, datas, pedidos, documentos, preliminares, jurisprudência).
Se o checklist está ok, encerre: isso
combate a expansão infinita do “polimento” textual.
5) Definição de “pronto” para peças e
pareceres
Antes de escrever, declare o padrão
mínimo: tese central, pedidos, fundamentos, prova citada e risco mapeado.
Tudo que não melhora a chance de
convencimento ou reduz risco é candidato a ser cortado.
Use a pergunta: “se eu remover este
parágrafo, perco algo essencial?”
Padronize estruturas por tipo de peça
(inicial, contestação, réplica, agravo, apelação, embargos).
Modelos reduzem variância e evitam que
cada peça “recomece do zero”, alimentando a Lei de Parkinson.
6) Pesquisa jurídica com limite e
critério
Ao contrário de “pesquisar
jurisprudência”, defina: tribunal-alvo, tema exato, período e 5 precedentes
máximos.
Trabalhe com “suficiência probatória”
da tese: 2 precedentes fortes valem mais que 12 medianos.
Salve as referências em um repositório
com tags (tema, tribunal, resultado, fundamento-chave).
Isso evita reabrir a mesma pesquisa em
todo processo e reduz a sensação de trabalho infinito.
7) Reuniões e atendimento ao cliente
sem expansão
Toda reunião precisa de objetivo, pauta
e decisão esperada (ex.: aprovar estratégia, definir documentos).
Limite padrão: 25 ou 50 minutos, com
ata de 5 linhas e responsáveis por próximos passos.
A atualização de andamento deve ser
“por exceção”: comunique quando houver fato relevante, não por hábito.
Isso preserva horas de trabalho
profundo e reduz o “tempo morto” que a Lei de Parkinson ocupa.
8) Delegação e fluxo: evitar gargalos
de última hora
Delegue cedo e com contexto: objetivo,
padrão de qualidade, exemplo, e prazo interno do rascunho.
Adote revisão em duas etapas: feedback
rápido no esqueleto e revisão final apenas no texto consolidado.
Assim, você não descobre falhas
estruturais quando já não há tempo para reescrever com calma.
Quadros simples (Kanban - método
de gestão do trabalho – exemplo na advocacia: A Fazer → Em Andamento → Em Revisão → Concluído,
respectivamente, Elaborar contestação → Revisar inicial → Separar documentos do cliente → Fazer protocolo → Atualizar cliente (ponto de controle) → Preparar audiência)
ajudam a visualizar o WIP (Work In Process - “Em Andamento”, “Em
Revisão”, “Aguardando Cliente”, etc.) e impedir que tudo esteja “em andamento”
ao mesmo tempo. Exemplo prático de
Kanban com WIP na advocacia.
Colunas:
1.
A
Fazer
2.
Em
Andamento (WIP = 2)
3.
Em
Revisão (WIP = 1)
4.
Concluído
Regras:
Se “Em Andamento” já tem 2 cartões,
ninguém começa outra coisa.
Para puxar nova tarefa, precisa
finalizar uma ou mover adiante.
Resultado: o escritório começa a operar
com ritmo e previsibilidade, em vez de “urgências eternas”.
9) Ética e qualidade: o limite não é
descuido
Aplicar a Lei de Parkinson não autoriza
atalhos que comprometam sigilo, diligência e veracidade.
O objetivo é cortar excesso e atraso,
preservando o núcleo: fatos corretos, prova organizada e tese clara.
Use uma checagem final obrigatória:
prazos, competência, pedidos, documentos, procuração, custas e protocolo.
Esse “gate” protege contra o
risco típico de compressão de tempo: errar onde não pode.
10) Conclusão: o advogado que controla
o tempo controla a causa
Quando você reduz o tempo disponível e
aumenta a clareza do “pronto”, a peça para de inflar sozinha.
Você ganha cadência, melhora a
qualidade por foco e reduz o custo emocional do contencioso.
Próximos passos: (1) implemente prazo
interno + checklist em 1 tipo de peça; (2) crie timeboxes por bloco; (3)
padronize a pesquisa em 5 precedentes máximos.
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