quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

LEI DE PARKINSON NA ADVOCACIA BRASILEIRA: PRODUTIVIDADE, PRAZOS E QUALIDADE


 

Stanley Martins Frasão

Advogado Sócio de Homero Costa Advogados

 

 

A Lei de Parkinson diz que o trabalho tende a ocupar todo o tempo disponível para ser feito. Essa lei pode demonstrar como é o impacto na gestão do tempo e na produtividade dos advogados.

A Lei de Parkinson é um princípio de produtividade formulado por Cyril Northcote Parkinson (historiador e escritor britânico) que resume um padrão comum no trabalho: “O trabalho se expande de modo a preencher o tempo disponível para a sua realização.”

Na advocacia, isso aparece quando um prazo longo vira permissão tácita para adiar, revisar demais e complicar.

O resultado costuma ser noites em claro, retrabalho e peças maiores sem ganho proporcional de persuasão.

Aplicá-la bem não é “correr mais”, e sim criar limites inteligentes para entregar com consistência.

No ano que completo 1 de estágio + 39 anos do exercício da advocacia explicito sugestões para usar a Lei de Parkinson no contencioso e no consultivo no Brasil.

 

1) Onde a Lei de Parkinson “pega” mais forte

Prazos processuais (CPC/CLT/CPP) muitas vezes parecem folgados, mas a peça cresce até o último dia.

A pesquisa de jurisprudência se expande em abas infinitas quando não há um critério de suficiência.

A revisão vira perfeccionismo: “só mais um ajuste” em vez de clareza, estrutura e tese.
Reuniões com clientes ou equipe ocupam o bloco inteiro porque não têm pauta e decisão definida.

A gestão do escritório (financeiro, marketing, operacional) toma o dia quando não há janelas fixas.

 

 

2) Sintomas típicos na rotina do advogado

Peças com 30 páginas que poderiam ter 12, ou menos, porque o tempo disponível incentiva “encher” o argumento.

Checagens repetidas de andamento processual sem objetivo, virando uma forma sofisticada de procrastinar.

Delegação tardia: o sócio segura tudo até perto do prazo, e a equipe vira gargalo na reta final.

Tarefas pequenas (juntar documento, protocolar, gerar guia) viram “pendências eternas” no fim do dia do derradeiro prazo.

Agenda reativa: o dia é consumido por urgências alheias porque não existe timeboxing.

 

3) Princípio central: reduzir o tempo disponível (com segurança)

Para cada entrega, defina um prazo interno menor que o prazo legal, com folga para imprevistos.

Exemplo: se a contestação vence em 15 dias, trate como se vencesse em 10 e reserve 5 para ajuste final.

Isso não diminui qualidade; aumenta previsibilidade e reduz a chance de erro por cansaço no último dia.

O prazo interno deve ser comunicado como regra de operação, não como “favor” da equipe.

A folga final serve para anexos, validações, checagem de poderes, custas, e contingências de sistema.

 

4) Timeboxing para atividades jurídicas (modelo simples)

Separe a elaboração de peças em blocos: (a) tese e pedidos, (b) fatos e provas, (c) direito, (d) revisão.

Defina tempo máximo por bloco, por exemplo 45/60/60/30 minutos, conforme complexidade do caso.

Ao fim de cada bloco, produza um entregável: tópicos prontos, ainda que imperfeitos.

A revisão deve ter checklist objetivo (ortografia, datas, pedidos, documentos, preliminares, jurisprudência).

Se o checklist está ok, encerre: isso combate a expansão infinita do “polimento” textual.

 

 

5) Definição de “pronto” para peças e pareceres

Antes de escrever, declare o padrão mínimo: tese central, pedidos, fundamentos, prova citada e risco mapeado.

Tudo que não melhora a chance de convencimento ou reduz risco é candidato a ser cortado.

Use a pergunta: “se eu remover este parágrafo, perco algo essencial?”

Padronize estruturas por tipo de peça (inicial, contestação, réplica, agravo, apelação, embargos).

Modelos reduzem variância e evitam que cada peça “recomece do zero”, alimentando a Lei de Parkinson.

 

6) Pesquisa jurídica com limite e critério

Ao contrário de “pesquisar jurisprudência”, defina: tribunal-alvo, tema exato, período e 5 precedentes máximos.

Trabalhe com “suficiência probatória” da tese: 2 precedentes fortes valem mais que 12 medianos.

Salve as referências em um repositório com tags (tema, tribunal, resultado, fundamento-chave).

Isso evita reabrir a mesma pesquisa em todo processo e reduz a sensação de trabalho infinito.

 

7) Reuniões e atendimento ao cliente sem expansão

Toda reunião precisa de objetivo, pauta e decisão esperada (ex.: aprovar estratégia, definir documentos).

Limite padrão: 25 ou 50 minutos, com ata de 5 linhas e responsáveis por próximos passos.

A atualização de andamento deve ser “por exceção”: comunique quando houver fato relevante, não por hábito.

Isso preserva horas de trabalho profundo e reduz o “tempo morto” que a Lei de Parkinson ocupa.

 

8) Delegação e fluxo: evitar gargalos de última hora

Delegue cedo e com contexto: objetivo, padrão de qualidade, exemplo, e prazo interno do rascunho.

Adote revisão em duas etapas: feedback rápido no esqueleto e revisão final apenas no texto consolidado.

Assim, você não descobre falhas estruturais quando já não há tempo para reescrever com calma.

Quadros simples (Kanban - método de gestão do trabalho – exemplo na advocacia: A Fazer Em Andamento Em Revisão Concluído, respectivamente, Elaborar contestação Revisar inicial Separar documentos do cliente Fazer protocolo Atualizar cliente (ponto de controle) Preparar audiência) ajudam a visualizar o WIP (Work In Process - “Em Andamento”, “Em Revisão”, “Aguardando Cliente”, etc.) e impedir que tudo esteja “em andamento” ao mesmo tempo.  Exemplo prático de Kanban com WIP na advocacia.

Colunas:

1.    A Fazer

2.    Em Andamento (WIP = 2)

3.    Em Revisão (WIP = 1)

4.    Concluído

Regras:

Se “Em Andamento” já tem 2 cartões, ninguém começa outra coisa.

Para puxar nova tarefa, precisa finalizar uma ou mover adiante.

Resultado: o escritório começa a operar com ritmo e previsibilidade, em vez de “urgências eternas”.

 

9) Ética e qualidade: o limite não é descuido

Aplicar a Lei de Parkinson não autoriza atalhos que comprometam sigilo, diligência e veracidade.

O objetivo é cortar excesso e atraso, preservando o núcleo: fatos corretos, prova organizada e tese clara.

Use uma checagem final obrigatória: prazos, competência, pedidos, documentos, procuração, custas e protocolo.

Esse “gate” protege contra o risco típico de compressão de tempo: errar onde não pode.

 

 

 

10) Conclusão: o advogado que controla o tempo controla a causa

Quando você reduz o tempo disponível e aumenta a clareza do “pronto”, a peça para de inflar sozinha.

Você ganha cadência, melhora a qualidade por foco e reduz o custo emocional do contencioso.

Próximos passos: (1) implemente prazo interno + checklist em 1 tipo de peça; (2) crie timeboxes por bloco; (3) padronize a pesquisa em 5 precedentes máximos.

Espero ter ajudado.

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