Stanley
Martins Frasão
Advogado
Sócio do Homero Costa Advogados
As
Sociedades de Advogados convivem com um paradoxo silencioso: quanto mais
qualificados são os profissionais, maior tende a ser a ambiguidade nas
responsabilidades de gestão.
A
cultura jurídica, que tradicionalmente valoriza a autonomia intelectual e o
debate técnico, muitas vezes falha ao transpor essa lógica para a administração
do escritório. O resultado é um cenário de decisões sem "dono",
tarefas sem responsáveis claros e uma fragilidade no accountability. É
nesse contexto que a Matriz RACI deixa de ser uma ferramenta corporativa
genérica para se tornar um mecanismo estratégico de eficiência e governança.
A
Matriz RACI organiza as responsabilidades através de quatro papéis
fundamentais: o Responsável (R), que executa a tarefa; o Accountable (A), que
responde pelo resultado final; o Consultado (C), que contribui tecnicamente; e
o Informado (I), que acompanha o progresso. Na advocacia, a implementação desse
modelo reduz drasticamente a ambiguidade decisória, melhorando a
previsibilidade na condução de casos, mitigando conflitos entre sócios e,
consequentemente, elevando a confiança do cliente no serviço prestado.
Um
dos problemas estruturais que a RACI resolve é a crença equivocada de que, em
um ambiente de alta senioridade, as responsabilidades se organizam
organicamente. Na prática, a ausência de definições objetivas gera sobreposição
de funções, omissões involuntárias em tarefas críticas e uma centralização
excessiva em determinados sócios. Ao transformar percepções subjetivas em
definições formais, a matriz atua na gestão de casos — separando quem define a
estratégia de quem executa as peças — e no relacionamento com clientes,
evitando o fenômeno do "cliente difuso", que compromete o follow-up
e a percepção de valor.
Na
governança interna, a RACI introduz clareza em temas sensíveis, como a
definição de honorários e a distribuição de resultados, permitindo que a
responsabilidade seja formalizada sem eliminar a necessária colegialidade.
A
maior barreira para sua adoção, contudo, é cultural. Advogados tendem a
resistir a estruturas que aparentam engessar a atuação ou que explicitam
responsabilidades de forma a facilitar cobranças. Entretanto, é preciso
compreender que a clareza não limita a liberdade; pelo contrário, ela protege a
eficiência institucional.
Para
que a aplicação seja bem-sucedida, é crucial evitar erros comuns, como a
designação de múltiplos Accountables para uma mesma atividade ou o
excesso de pessoas Consultadas, o que torna o processo decisório lento.
Em
sociedades maduras, a RACI integra-se aos modelos de avaliação de desempenho e
critérios de remuneração, deixando de ser apenas um quadro organizacional para
se tornar um pilar de alinhamento estratégico.
A
advocacia contemporânea exige que a excelência técnica seja acompanhada por uma
gestão rigorosa, onde a clareza objetiva sobre "quem faz o quê" não é
apenas desejável, mas indispensável para a sustentabilidade do negócio.
Nenhum comentário:
Postar um comentário