Stanley Martins Frasão
Advogado
Sócio do Homero Costa Advogados
A maioria das sociedades de advogados
ainda toma decisões importantes baseada em palpite. Não por falta de
inteligência dos sócios, mas por falta de dados. O sócio mais experiente intui
que determinada área está dando prejuízo. Outro sócio acha que o problema é
outro. Ninguém tem os números. E sem números, não há gestão. Só opinião.
Business Intelligence, ou BI, é o antídoto para isso. BI não
é um software caro nem um departamento de TI. É um processo: coletar,
organizar, analisar e monitorar informações para apoiar decisões. O software é
apenas a ferramenta. O que importa é o ciclo de transformar dados brutos em
clareza.
Numa sociedade de advogados, a
aplicação mais imediata do BI está nos indicadores financeiros e operacionais.
Quanto cada área de prática realmente contribui para o resultado? Qual o custo
de cada sócio? Quantas propostas foram enviadas no mês e quantas se converteram
em contratos? Qual o ticket médio dos clientes ativos? Perguntas assim parecem
básicas, mas a maioria das sociedades não consegue respondê-las sem um trabalho
manual de planilha que consome dias e ainda assim entrega números
desatualizados.
O BI resolve isso com um painel em
tempo real. Nele, os sócios enxergam o faturamento do mês comparado à meta, a
margem por área, a inadimplência, o pipeline de novos negócios e a
produtividade de cada advogado. Tudo num só lugar, sem depender de relatórios
que chegam atrasados.
Mas o valor do BI vai além do
diagnóstico. Com os dados certos, a sociedade passa a enxergar relações de
causa e efeito. Se a margem caiu, não basta saber que caiu. É preciso entender
por quê. Foi porque as horas não faturáveis aumentaram? Porque os honorários
foram mal precificados? Porque um cliente específico consumiu recursos demais e
gerou retorno de menos? O BI conecta os pontos.
Exemplo concreto: uma sociedade de
contencioso de massa notou que a margem líquida da área cível havia caído de
35% para 22% em dois trimestres. O painel de BI mostrou que o número de
audiências remotas havia dobrado, mas a taxa de êxito por audiência permanecia
estável. O problema não era o resultado jurídico, era o custo operacional. Cada
audiência consumia em média três horas de trabalho preparatório que não estavam
sendo precificadas. Com esse dado, a sociedade renegociou os honorários com o
cliente e recuperou a margem.
A experiência de quem já estruturou
esse processo em sociedades de advogados mostra que o caminho tem quatro
etapas. 1º., definir os objetivos prioritários. Não adianta querer medir tudo
de uma vez. Escolha três ou quatro indicadores que realmente importam para o
crescimento da sociedade. 2º., desdobrar esses objetivos em relações de causa e
efeito. Se a meta é aumentar a receita em 20%, é preciso saber quais variáveis
operacionais geram esse resultado: número de reuniões comerciais, propostas
enviadas, taxa de conversão, ticket médio. Cada elo precisa ser medido. 3º.,
alinhar as metas coletivas com as individuais. Cada sócio e cada advogado
precisa saber o que fazer e como será cobrado. 4º., criar rituais de
acompanhamento. Não adianta planejar em janeiro e esquecer em dezembro. O
modelo mais eficaz combina reuniões trimestrais de revisão estratégica,
encontros mensais para análise de desvios e check-ins semanais para ajuste de
planos de ação.
Esse método de desdobramento de metas
em relações de causa e efeito, frequentemente representado por uma árvore de
valor, é exatamente o que separa sociedades que fazem planejamento estratégico
de verdade daquelas que apenas listam desejos qualitativos. Metas como
"reforçar a marca nacionalmente" ou "avançar na gestão de
pessoas" precisam ser traduzidas em indicadores mensuráveis, com dono,
prazo e linha de base definidos. Do contrário, viram aspirações, não metas.
O BI também permite algo que o mercado
jurídico brasileiro começa a exigir: transparência com os clientes. Sociedades
que dominam o BI conseguem, por exemplo, apresentar ao cliente corporativo um
relatório trimestral mostrando taxa de êxito por tipo de causa, tempo médio de
tramitação e economia gerada em comparação com honorários fixos. Isso
transforma a relação: o cliente deixa de enxergar o advogado como um custo e
passa a vê-lo como um parceiro que presta contas com transparência. O cliente
não quer só um bom advogado. Quer um advogado que preste contas, o que é regra
na profissão.
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