Stanley Martins Frasão
Advogado
Sócio do Homero Costa Advogados
Na
série “FRINGE”, em um dos episódios, ambientado num apartamento de um hospital,
a personagem Olivia, ao sair do coma, deixou escapar uma frase:
Genoû kreíttōn toû patrós.
Do
grego: "Torna-te superior ao teu pai."
Não
era uma maldição. Era um lembrete. Daqueles que a gente encontra sem procurar.
Pense:
todo homem carrega o pai dentro de si. Não por escolha, mas por herança. O
jeito que ele segurava o silêncio. A raiva que vinha antes das palavras. As
ausências justificadas pelo trabalho. O amor que ele sentia, mas não sabia
traduzir em gestos.
Seu
pai também carregava o pai dele. E o pai dele, o próprio. Uma corrente que vem
de longe, de homens que aprenderam que sentir era fraqueza, pedir desculpa era
derrota, estar presente era opcional.
Mas
em algum ponto, e esse ponto é agora, alguém precisa olhar para essa corrente e
dizer: aqui não. Aqui eu paro.
Não
se trata de apagar seu pai. Nem de julgá-lo. Ele fez o que pôde com as
ferramentas que tinha. A questão é outra: você tem ferramentas que ele não
teve. Palavras que ele não aprendeu. Permissão para ser inteiro, coisa que lhe
foi negada.
Ser
melhor que seu pai é responsabilidade, não a de pagar contas, mas a de
responder por si mesmo. É caráter, o que você faz quando ninguém está olhando,
a palavra que mantém, o abraço que dá sem motivo.
É
disciplina, não a rigidez que ele aprendeu, mas a constância de escolher, todo
dia, ser um pouco mais presente, mais paciente, mais humano.
É
empatia, essa coisa rara que os homens da geração dele foram treinados a não
ter. "Engole o choro", diziam. "Homem não reclama." Mas
você pode desaprender isso. Pode sentir sem vergonha. Pode ouvir sem querer
consertar.
É
inteligência emocional, dar nome ao que antes era só silêncio. Reconhecer que a
raiz da raiva muitas vezes é medo. Que a agressividade às vezes é tristeza mal
colocada. Que o silêncio pode ser amor que não aprendeu a falar.
Os
gregos antigos entendiam isso. Sabiam que a excelência não se herdava pelo
sangue, conquistava-se pela escolha. O filho não deveria repetir o pai. Deveria
aperfeiçoá-lo. Não por deslealdade, mas porque uma civilização que não evolui
definha. E a evolução começa dentro de casa.
Genoû
kreíttōn toû patrós.
Não
é uma acusação. É um convite.
Ninguém
vai aplaudir quando você escolher a terapia em vez do silêncio. Não vai ter
cerimônia quando você pedir desculpas ao seu filho. Não vai ter placa na parede
quando você quebrar, sozinho, um ciclo de três gerações.
Mas
seus filhos vão sentir. Sua esposa vai sentir. E, um dia, talvez seu pai também
sinta, mesmo que nunca diga nada.
Porque
ser melhor que seu pai não é competição. É reparação. É pegar o que veio antes,
separar o que vale a pena manter, deixar o que precisa ficar para trás e
construir, tijolo por tijolo, uma versão de si mesmo que honra o passado sem se
prender a ele.
A
corrente pode continuar. Mas a partir de você, ela pode ser diferente.
Genoû kreíttōn toû patrós.
Essa
é a única missão que realmente importa.
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