terça-feira, 4 de agosto de 2026

SEJA UM HOMEM MELHOR QUE SEU PAI

  

Stanley Martins Frasão

                                              Advogado Sócio do Homero Costa Advogados

 

 

Na série “FRINGE”, em um dos episódios, ambientado num apartamento de um hospital, a personagem Olivia, ao sair do coma, deixou escapar uma frase:

Genoû kreíttōn toû patrós.

Do grego: "Torna-te superior ao teu pai."

Não era uma maldição. Era um lembrete. Daqueles que a gente encontra sem procurar.

Pense: todo homem carrega o pai dentro de si. Não por escolha, mas por herança. O jeito que ele segurava o silêncio. A raiva que vinha antes das palavras. As ausências justificadas pelo trabalho. O amor que ele sentia, mas não sabia traduzir em gestos.

Seu pai também carregava o pai dele. E o pai dele, o próprio. Uma corrente que vem de longe, de homens que aprenderam que sentir era fraqueza, pedir desculpa era derrota, estar presente era opcional.

Mas em algum ponto, e esse ponto é agora, alguém precisa olhar para essa corrente e dizer: aqui não. Aqui eu paro.

Não se trata de apagar seu pai. Nem de julgá-lo. Ele fez o que pôde com as ferramentas que tinha. A questão é outra: você tem ferramentas que ele não teve. Palavras que ele não aprendeu. Permissão para ser inteiro, coisa que lhe foi negada.

Ser melhor que seu pai é responsabilidade, não a de pagar contas, mas a de responder por si mesmo. É caráter, o que você faz quando ninguém está olhando, a palavra que mantém, o abraço que dá sem motivo.

É disciplina, não a rigidez que ele aprendeu, mas a constância de escolher, todo dia, ser um pouco mais presente, mais paciente, mais humano.

É empatia, essa coisa rara que os homens da geração dele foram treinados a não ter. "Engole o choro", diziam. "Homem não reclama." Mas você pode desaprender isso. Pode sentir sem vergonha. Pode ouvir sem querer consertar.

É inteligência emocional, dar nome ao que antes era só silêncio. Reconhecer que a raiz da raiva muitas vezes é medo. Que a agressividade às vezes é tristeza mal colocada. Que o silêncio pode ser amor que não aprendeu a falar.

Os gregos antigos entendiam isso. Sabiam que a excelência não se herdava pelo sangue, conquistava-se pela escolha. O filho não deveria repetir o pai. Deveria aperfeiçoá-lo. Não por deslealdade, mas porque uma civilização que não evolui definha. E a evolução começa dentro de casa.

Genoû kreíttōn toû patrós.

Não é uma acusação. É um convite.

Ninguém vai aplaudir quando você escolher a terapia em vez do silêncio. Não vai ter cerimônia quando você pedir desculpas ao seu filho. Não vai ter placa na parede quando você quebrar, sozinho, um ciclo de três gerações.

Mas seus filhos vão sentir. Sua esposa vai sentir. E, um dia, talvez seu pai também sinta, mesmo que nunca diga nada.

Porque ser melhor que seu pai não é competição. É reparação. É pegar o que veio antes, separar o que vale a pena manter, deixar o que precisa ficar para trás e construir, tijolo por tijolo, uma versão de si mesmo que honra o passado sem se prender a ele.

A corrente pode continuar. Mas a partir de você, ela pode ser diferente.

Genoû kreíttōn toû patrós.

Essa é a única missão que realmente importa.

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